À medida que o Brasil avança na integração de fontes renováveis variáveis, como a eólica e a solar, o setor elétrico enfrenta um desafio técnico fundamental: a necessidade de garantir flexibilidade e segurança ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Em entrevista exclusiva à HYDRO BRASIL, Marisete Fátima Dadald Pereira, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Energia Hidrelétrica (Abrage) defende que as Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs) não são apenas uma solução técnica, mas a chave para transformar a vantagem natural do país em um diferencial competitivo robusto.
A seguir, leia a sua entrevista completa:
P-Embora o CNPE tenha reconhecido a importância estratégica das UHRs, a ausência de um mecanismo de remuneração definido é apontada pelo setor como o maior entrave. Qual é a proposta da Abrage para que esses ativos sejam remunerados não apenas pela energia gerada, mas pelo serviço sistêmico de armazenamento e flexibilidade que oferecem?
As usinas hidrelétricas reversíveis são a principal solução de armazenamento de energia em larga escala. É uma tecnologia madura, consolidada e amplamente utilizada no mundo.
O Brasil reúne condições únicas para desenvolver essa tecnologia e o principal desafio não é tecnológico. Temos um relevo favorável, experiência em engenharia hidrelétrica e cadeia industrial 100% nacional.
Em um primeiro momento, os Leilões de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) podem ser um mecanismo eficiente para remunerar a capacidade das usinas reversíveis. No entanto, é fundamental que os demais serviços sistêmicos por elas prestados também sejam remunerados, permitindo o empilhamento de receitas.
A Lei nº 15.269/2025 reconheceu o armazenamento e criou instrumentos para acelerar investimentos em UHRs. As Resoluções do CNPE e regulamentações das agências estruturam as condições para viabilizar os primeiros projetos.
Esses avanços permitiram que várias empresas associadas da Abrage passassem a investir em estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental de usinas hidrelétricas reversíveis. Existe um movimento crescente de preparação de projetos, não apenas de empresas geradoras de energia, mas também de empresas de engenharia e consultoria, centros de pesquisa e universidades, motivado pela necessidade de armazenamento de energia.
O próximo passo é transformar esse potencial em investimentos concretos, por meio da realização dos primeiros leilões destinados à contratação dessa tecnologia. As usinas reversíveis e os novos investimentos em hidrelétricas convencionais representam uma oportunidade de transformar uma das maiores vantagens naturais do Brasil em uma vantagem competitiva para a próxima etapa da transição energética.
P- Como a associação avalia a possibilidade de criar um modelo de receita híbrida, que combine pagamentos por disponibilidade com ganhos de arbitragem no mercado de curto prazo (PLD)?
A Abrage entende que a adoção de um modelo de receita híbrida representa uma alternativa promissora para viabilizar economicamente as usinas hidrelétricas reversíveis no Brasil.
Não podemos limitar a remuneração exclusivamente à contratação de capacidade ou à arbitragem de preços no mercado de curto prazo, pois não reflete integralmente os benefícios que essa tecnologia proporciona ao sistema elétrico.
Nesse contexto, um modelo híbrido, que combine uma receita fixa pela disponibilidade e capacidade de prestação de serviços ao sistema com receitas variáveis decorrentes da arbitragem de energia no mercado de curto prazo, pode contribuir para reduzir o risco dos investimentos e tornar os projetos mais financiáveis.
Esse tipo de arranjo já é observado em diversos mercados internacionais, nos quais os ativos de armazenamento são remunerados tanto pelos serviços de confiabilidade e capacidade quanto pelas oportunidades de comercialização de energia.
P- O ONS tem enfatizado a necessidade de flexibilidade devido ao avanço acelerado da eólica e da solar. Na visão da Abrage, as reversíveis devem ser tratadas como um complemento às baterias químicas ou como um substituto de escala superior para garantir a segurança do SIN a longo prazo?
As usinas hidrelétricas reversíveis e os sistemas de armazenamento por baterias não devem ser vistos como tecnologias concorrentes, mas como soluções complementares, cada uma com características e aplicações específicas.
As baterias químicas tendem a desempenhar um papel importante em serviços de curta duração, como controle de frequência, resposta ultrarrápida, suavização de oscilações e deslocamento de energia por algumas horas. Já as usinas hidrelétricas reversíveis são particularmente adequadas para o armazenamento de energia em larga escala e por períodos mais longos, oferecendo elevada capacidade de potência, grande vida útil e possibilidade de múltiplos ciclos operativos ao longo de décadas.
Para um sistema elétrico com crescente participação de fontes renováveis variáveis, como o brasileiro, será necessária uma combinação de diferentes tecnologias de armazenamento. Nesse contexto, as usinas reversíveis apresentam atributos que dificilmente podem ser substituídos integralmente por baterias, especialmente quando se considera a necessidade de armazenamento de longa duração, atendimento à demanda em eventos críticos, suporte à operação do sistema e oferta de potência firme.
Assim, a Abrage entende que a estratégia mais eficiente para o Brasil não é escolher entre baterias e usinas reversíveis, mas construir um portfólio de soluções de armazenamento.
P- Existem preocupações sobre o impacto da operação de bombeamento no uso múltiplo das águas dos reservatórios. Como a Abrage pretende mediar esse diálogo com outros setores para garantir o licenciamento ambiental sem inviabilizar a operação das reversíveis?
A implantação de usinas hidrelétricas reversíveis deve ser pautada pela compatibilização entre a segurança energética, a proteção ambiental e os múltiplos usos dos recursos hídricos. Esses objetivos são complementares e devem ser tratados de forma integrada desde as fases de planejamento e licenciamento dos empreendimentos.
A operação de bombeamento nas usinas hidrelétricas reversíveis demanda uma avaliação criteriosa de seus efeitos sobre os reservatórios e sobre os diferentes usuários da água. No entanto, esses impactos variam conforme as características de cada projeto e podem ser adequadamente avaliados e mitigados por meio de estudos técnicos específicos, considerando aspectos hidrológicos, ambientais, operacionais e socioeconômicos.
Nesse contexto, a Abrage considera que o diálogo é fundamental para construir soluções que conciliem a preservação dos usos múltiplos da água com a necessidade de ampliar a flexibilidade e a segurança do sistema elétrico brasileiro. Em muitos casos, as usinas reversíveis poderão, inclusive, ser concebidas aproveitando reservatórios e infraestruturas existentes, reduzindo impactos ambientais e conflitos pelo uso da água.
P-O mercado aguarda a definição dos requisitos técnicos para os próximos leilões de reserva de capacidade. Qual é o posicionamento da Abrage sobre a competitividade das reversíveis em relação a outras tecnologias nos leilões: elas deveriam ter leilões segregados para garantir sua entrada inicial no parque gerador?
A Associação considera que, na fase inicial de inserção dessa tecnologia no Brasil, a realização de leilões ou produtos específicos para usinas reversíveis pode ser uma alternativa adequada para viabilizar os primeiros empreendimentos, como o Leilão de Reserva de Capacidade na Forma de Potência. Essa abordagem permitiria superar as barreiras inerentes a uma tecnologia ainda inexistente em escala comercial no País, proporcionando previsibilidade regulatória, redução da percepção de risco pelos investidores e formação de uma cadeia de conhecimento e experiência operacional.
À medida que o mercado amadureça e sejam estabelecidos mecanismos de remuneração para atributos como armazenamento, potência, flexibilidade e serviços ancilares, a tendência natural é que as usinas reversíveis possam competir em condições cada vez mais equilibradas com outras soluções de armazenamento e de capacidade.
Mais importante do que a segregação por tecnologia é que os leilões sejam estruturados para contratar os atributos efetivamente necessários ao sistema elétrico. Se o objetivo é garantir potência, armazenamento de longa duração, flexibilidade operativa e confiabilidade, o desenho dos produtos deve refletir essas necessidades, permitindo que as tecnologias capazes de fornecê-las concorram em bases técnicas e econômicas adequadas. A necessidade de potência já existe em 2026 e amplia-se nos próximos anos. Mais de 40 GW de necessidade adicional de potência até 2035
P- Dado o potencial mapeado pela EPE, qual o papel que a Abrage projeta para o retrofit de usinas existentes versus a construção de novos empreendimentos greenfield?
Para a Abrage, a modernização e o retrofit das usinas existentes representam a prioridade imediata para suprir a crescente demanda de potência do sistema, que exigirá mais de 40 GW adicionais até 2035. Essa estratégia permite obter ganhos rápidos e sustentáveis de eficiência, aproveitando a infraestrutura que o país já construiu sem a necessidade de novas obras civis ou alagamentos.
O setor já demonstra forte disposição para investir nessa frente, mapeando um potencial de quase 11 GW com a repotenciação de usinas existentes e mais 5 GW por meio do aproveitamento de poços vazios e ampliação de casas de força. Em paralelo, a associação projeta os novos empreendimentos greenfield como pilares para o crescimento estrutural de longo prazo, com foco central nas Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs) como solução para o armazenamento de energia em larga escala.
O país dispõe de um potencial de 30 GW para novos projetos convencionais e de 38 GW especificamente em usinas reversíveis. Essa tecnologia nacional e madura é apontada como indispensável para dar flexibilidade ao sistema elétrico e viabilizar a expansão segura das fontes renováveis variáveis, como a eólica e a solar.
Em suma, a visão da Abrage é de complementaridade entre o retrofit e os novos projetos, em que o primeiro otimiza o parque atual e o segundo garante a expansão futura. O sucesso dessa transição, contudo, depende de avanços urgentes na regulação, como a regulamentação da Lei nº 15.269/2025, a consolidação de sinais econômicos e leilões específicos que valorizem e remunerem adequadamente os atributos de potência, flexibilidade e armazenamento entregues ao sistema.
P – A Abrage entende ser necessária uma lei específica no Congresso que consolide o marco legal das usinas reversíveis, ou a atual via infra-legal é suficiente para oferecer a segurança jurídica necessária aos financiadores de longo prazo?
A avaliação da Abrage é que não há necessidade de uma lei específica para viabilizar as usinas hidrelétricas reversíveis. O arcabouço regulatório atualmente disponível já oferece bases suficientes para o desenvolvimento desses empreendimentos. O desafio não está na criação de um novo marco legal, mas na consolidação de uma arquitetura regulatória, econômica e contratual compatível com investimentos de grande porte, elevada intensidade de capital e longo prazo de maturação.
O armazenamento de energia será uma das principais agendas da próxima etapa da transição energética. Nesse contexto, o Brasil reúne condições excepcionais para liderar o desenvolvimento das usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs), tecnologia consolidada mundialmente e responsável por cerca de 96% da capacidade de armazenamento de energia elétrica do planeta, com mais de 201 GW instalados. Seu funcionamento baseia-se no bombeamento de água entre reservatórios para armazenar energia excedente e devolvê-la ao sistema nos momentos de maior necessidade.
O país dispõe de um potencial conservador estimado em 38 GW para implantação de usinas reversíveis e conta com um parque hidrelétrico de aproximadamente 110 GW, com reservatórios capazes de viabilizar esses projetos. Além disso, o Brasil possui um diferencial competitivo relevante: trata-se de uma solução que pode ser desenvolvida integralmente com recursos nacionais, apoiada em relevo favorável, engenharia de excelência e uma cadeia industrial consolidada. Ou seja, não é necessário importar essa tecnologia; o País reúne todas as condições para gerar emprego, renda, inovação e desenvolvimento industrial.
O avanço desses projetos depende agora da consolidação de mecanismos que proporcionem previsibilidade aos investidores e viabilizem o financiamento de empreendimentos de longo prazo. Isso requer instrumentos capazes de valorizar e remunerar adequadamente os diversos serviços prestados pelas usinas reversíveis ao sistema elétrico, como armazenamento de energia, flexibilidade operativa, potência, capacidade de resposta e demais atributos essenciais à segurança, à confiabilidade e à eficiência do Sistema Interligado Nacional. Com esses sinais econômicos e contratuais, o Brasil terá condições de transformar seu expressivo potencial técnico em investimentos e infraestrutura estratégica para a transição energética.


