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Inicialmente, o foco da engenharia de PCHs era puramente a otimização de projetos para garantir a competitividade. Com as tarifas de energia represadas e o baixo volume de contratos, as empresas foram forçadas a buscar soluções mais eficientes, principalmente na tecnologia das turbinas. Essa pressão do mercado foi o estopim para uma abordagem mais criteriosa, onde cada detalhe – da escolha do arranjo à seleção de equipamentos – passou a ser avaliado com mais rigor para manter os projetos de pé.
Mentalidade
No entanto, a mudança mais profunda não foi técnica, mas sim de mentalidade. A partir dos anos 90, e especialmente nos últimos 15 anos, a preocupação com os impactos ambientais se tornou um fator decisivo. Como resultado, a busca pela viabilidade dos projetos se expandiu para além da esfera econômica. “Passou-se a considerar mais os parâmetros ambientais do que os parâmetros energéticos”, explica Faller. A dinâmica de desenvolvimento de toda a cadeia, desde a prospecção até a operação, passou a ser moldada pelas condicionantes ambientais.
A crescente pressão socioambiental acabou restringindo o potencial hidrelétrico a ser aproveitado. Esse obstáculo, no entanto, foi o motor de uma nova onda de inovação. A engenharia, antes focada em extrair o máximo de energia, teve de se adaptar e buscar o “aproveitamento possível” diante das restrições.
“Essa pressão trouxe uma pressão de melhora na eficiência”, afirma Faller. As empresas de engenharia foram desafiadas a utilizar as melhores tecnologias para desenvolver o potencial restante. Isso incluiu aproveitar a chamada “vazão sanitária” – o volume mínimo de água que deve ser mantido no rio para preservar o ecossistema – para gerar energia. A eficiência dos equipamentos e dos projetos como um todo se tornou crucial para buscar um ganho marginal de energia e, assim, melhorar o resultado final.
Automação
A evolução tecnológica nas PCHs também se manifestou na automação e no monitoramento. A partir dos anos 2000, as usinas já começaram a ser construídas com sistemas automatizados, visando uma operação mais eficiente e de menor custo, com a redução do número de operadores.
Mais recentemente, a automação evoluiu para a operação remota, centralizada em centros de controle. Agora, o próximo passo já está sendo dado: a operação autônoma. A Inteligência Artificial (IA) tem sido aplicada para maximizar os recursos hídricos e maximizar a geração de energia. Sistemas de IA, por exemplo, conseguem integrar dados da operação, como balanço hídrico, por análise de todo o sensoriamento da usina.
A IA também já está sendo utilizada na interpretação de imagens coletadas por drones, que monitoram o entorno das usinas. “A ideia é eliminar uma decisão operativa que era anteriormente adotada por uma pessoa”, explica Faller. O sistema, com base nas informações recebidas, pode tomar decisões em tempo real, como ligar ou desligar uma turbina.
Mudanças climáticas
Apesar de todas as inovações, o maior desafio técnico para a engenharia de PCHs ainda está por vir: as mudanças climáticas. Com eventos extremos, como as cheias históricas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o passado já não é mais uma referência segura para projetar o futuro. “O passado não é o melhor meio de prever o futuro”, alerta Faller.
O desafio, portanto, é projetar usinas que não apenas entreguem um bom resultado energético, mas que também tenham a resiliência necessária para suportar as condições climáticas extremas que o Brasil e o mundo têm vivenciado. É um desafio que exige uma nova abordagem, onde a segurança e a adaptabilidade dos projetos se tornam tão importantes quanto a eficiência e a viabilidade econômica, ensina Faller.


