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O avanço do setor elétrico brasileiro rumo à abertura total do mercado livre é um passo importante, mas está longe de ser a panaceia para a modernização do modelo nacional. Quem faz o alerta é o especialista Charles Lenzi, que manifesta profunda preocupação com o atual contexto de alta complexidade e desequilíbrio estrutural da matriz.
Em entrevista exclusiva á Hydro Brasil, Lenzi criticou a expansão desenfreada de fontes intermitentes impulsionadas por incentivos artificiais e cobrou uma revisão urgente na forma como o país remunera a segurança operativa e a gestão de recursos hídricos.
Segundo Lenzi, o modelo atual falha ao não precificar corretamente os atributos de cada fonte e ao ignorar os custos sistêmicos gerados pelas fontes que não conseguem garantir fornecimento contínuo.
“A expansão de fontes intermitentes, principalmente a MMGD solar, com subsídios e incentivos que dão uma sinalização equivocada de preços, está criando um desequilíbrio muito perigoso no sistema, além de impactar em custos cada vez maiores para todos”, declara.
Ele pondera que, em um cenário de forte volatilidade e excesso de geração em alguns horários combinado com escassez em outros, atributos como confiabilidade tornam-se indispensáveis.
“Mais do que nunca, o sistema elétrico brasileiro vai precisar de fontes confiáveis, despacháveis, renováveis e limpas e com flexibilidade operativa. As centrais hidrelétricas de pequeno porte são tudo isso”, defende.
Sobre o calendário de contratações do setor, especialmente com o adiamento, pelo Ministério de Minas e Energia, do leilão que prevê a contratação de 3 mil MW de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) para o segundo semestre de 2026, Lenzi afirma que o segmento recebeu a medida com naturalidade. Longe de representar um revés, a nova data abre uma janela para que os empreendedores qualifiquem suas propostas, embora o mercado aguarde com ansiedade a publicação final das diretrizes da Lei 15.269/2025.
“Vejo o setor muito bem-preparado e estruturado para o desenvolvimento dos projetos”, avalia.
No entanto, o otimismo generalizado em relação ao certame esbarra em velhos gargalos de infraestrutura que afetam o escoamento da energia. O executivo adverte que o sucesso dos projetos que entregarão energia a partir de 2032 dependerá da capacidade do país em equacionar o acesso às redes das distribuidoras.
Os serviços ancilares
“Alguns desafios precisam ser enfrentados, sendo o principal deles a questão da margem de escoamento e a conexão”, pontua, sugerindo ainda que, pelo forte impacto socioeconômico regional dessas usinas, “seria fundamental assegurar linhas de financiamento adequadas (como aquelas do Fundo Clima) para garantir o sucesso das implementações”.

Um dos pontos mais críticos levantados por Charles Lenzi, consultor e ex-presidente da Abragel, diz respeito ao aumento do curtailment — o corte temporário da geração de usinas por restrições técnicas da rede de transmissão. As PCHs e CGHs, mesmo conectadas diretamente na rede de distribuição e sem despacho centralizado do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), têm sido acionadas para modular seus reservatórios e estabilizar a rede física, sofrendo as sanções de corte sem qualquer contrapartida financeira.
“Elas podem e são acionadas para ajudar na estabilidade do sistema elétrico, sofrendo cortes como as demais usinas renováveis, sem, entretanto, serem ressarcidas por isso”, critica Lenzi.
Ele reclama uma reforma conceitual por parte dos reguladores para valorizar o suporte técnico que essas estruturas oferecem em momentos críticos: “É fundamental que se defina, regule e precifique adequadamente os serviços ancilares prestados pelas hidrelétricas de todos os portes. As PCHs, mesmo com reservatórios pequenos, podem colaborar muito com a modulação de geração, fornecendo atributos de potência e confiabilidade nos horários mais necessários”.
Destravar essa remuneração é o caminho para explorar o potencial mapeado de mais de 14 GW em pequenos aproveitamentos, que o mercado frequentemente classifica como a “Itaipu invisível”.
Sobre os críticos que apontam as regras de contratação de PCHs como uma suposta reserva de mercado compulsória, ele lembra o caráter público e do ciclo de vida único desses ativos.
“Trata-se da única fonte de geração de energia elétrica que utiliza um bem da sociedade brasileira. Os aproveitamentos hidrelétricos pertencem a todos nós”, esclarece.
Ele detalha o modelo legal onde o investidor explora o recurso por 35 anos e, ao término do contrato, transfere a usina em pleno funcionamento para o patrimônio do Estado.
“As outras fontes de geração não são assim. Terminada sua vida útil precisam ser descomissionadas. As hidrelétricas têm, pouco a pouco, retomado a sua importância. Além disso, são fontes de geração de energia elétrica com o menor custo quando se considera todos os custos que impactam a tarifa paga pelos consumidores”, argumenta.
Os instrumentos estratégicos na gestão climática
Diante da severidade de secas e enchentes recentes que castigaram o país, Lenzi traz uma perspectiva renovada sobre o papel civilizatório das barragens. Longe de serem vilãs socioambientais, as usinas hidráulicas devem ser integradas de vez às estratégias nacionais de adaptação climática por meio do conceito de usos múltiplos da água.
“Os reservatórios de água devem ser entendidos como instrumentos estratégicos para a gestão das mudanças climáticas, no conceito de usos múltiplos, servindo para atender necessidades de consumo humano, irrigação, consumo animal, gestão de vazão e de transporte, lazer e, também, para a geração de energia elétrica”, elucida.
Ele saúda as recentes alterações trazidas pela legislação sobre o tema como uma diretriz oportuna para frear ideologias nas agências ambientais: “A expectativa é que essa diretriz ajude a mitigar a postura discriminatória que, na prática, tem sido adotada contra as usinas hidrelétricas nos últimos anos”.


