ESPAÇO PUBLICITÁRIO

Patrocínio

O LRCAP de armazenamento o preço da flexibilidade do SIN

Por Samuel Alves Barbosa

O Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) para Sistemas de Armazenamento por Baterias (BESS) será um marco para o setor elétrico brasileiro, não apenas com a introdução de uma nova tecnologia na matriz, mas a inauguração de uma classe de ativos única a flexibilidade precificada como infraestrutura regulada.

Durante décadas, o sistema brasileiro foi desenhado sobre uma flexibilidade natural dos reservatórios hidrelétricos. Com armazenamento natural de energia e gerenciado de forma centralizada pela ONS, o sistema elétrico tinha flexibilidade e inércia para responder as oscilações da demanda de energia. Com a entrada acelerada de fontes intermitentes e principalmente a expansão da MMGD o problema do sistema mudou. O ponto não é apenas ter a energia (MWh) é ter a potência disponível no momento certo, com resposta rápida, controle de tensão, capacidade de absorver excedentes e meios para reduzir o curtailment.

O ONS que antes tinha tempo de reagir as rampas de cargas e as variações do sistema com as hidráulicas, passou a ter janelas de resposta cada vez menores e a bateria com Grid Forming, que responde em milissegundos, é a solução para o sistema elétrico não porque seja tecnologia do futuro, mas porque é tecnologia disponível hoje no prazo de implantação que o sistema elétrico precisa.

Assim o BESS deixa de ser uma tese tecnológica e passa a ser uma tese de infraestrutura. Mas uma infraestrutura diferente, não é linha de transmissão, não é usina solar, não é uma térmica de ponta, é um ativo de flexibilidade, com contrato regulado, comportamento eletroquímico, dependência de software, risco de performance e forte influência da cadeia de fornecimento.

A semelhança com transmissão termina na receita fixa

A estrutura do LRCAP de Armazenamento a primeira vista parece confortável para o investidor, contratos de longo prazo (15 anos), remuneração via Receita Fixa (RF) indexada ao IPCA e mitigação de risco de contraparte setorial. Esse arranjo desenha o cenário ideal de bankability para o financiamento de projetos. O BESS precisava desse sinal, já que depender de arbitragem horária e serviços não adequadamente precificados, seria difícil estruturar o financiamento desses projetos. Cabe destacar que a receita fixa não elimina o risco, ela apenas muda o lugar onde o risco aparece.

O modelo lembra muito o que seria um leilão de transmissão, com uma receita anual permitida. Na transmissão, o investidor constrói, comissiona e opera um ativo relativamente estável. O risco principal fica no CAPEX, no prazo, no licenciamento, nos fornecedores e na disponibilidade operacional. Depois da entrada em operação, a dinâmica é conhecida. No BESS, além de todos os riscos da implantação a vida do ativo traz grandes incertezas. A degradação da bateria conforme o uso, a temperatura, a profundidade de descarga, o regime de carga, o comportamento dos inversores, o sistema térmico, o software e quem opera o ativo é o ONS, mas quem responde pela saúde eletroquímica do BESS é o empreendedor. A Receita Fixa remunera a disponibilidade, mas a disponibilidade precisa ser preservada por quinze anos.

Um lance competitivo demais pode ganhar o leilão e perder valor no tempo, ou trazer risco não precificado no bid do leilão. O custo não está apenas no EPC inicial, está no O&M, no augmentation, nas garantias, nos dados operacionais, na reposição futura de módulos, na robustez do sistema de controle e na capacidade de manter eficiência e disponibilidade quando o ativo for efetivamente chamado pelo ONS.

O BESS é um contrato financeiro apoiado em uma máquina eletroquímica, maior erro é descobrir no ano 7 – 8 que as premissas não foram corretamente adequadas.  

A dinâmica do leilão, no produto nacional, os fabricantes e o que pode decidir o jogo

Nos primeiros ciclos dos leilões energia nova com ativos eólicos, não bastava ter um bom projeto, vento, terreno e conexão. Quem frequentemente viabilizava o vencedor era o fornecedor da turbina, o fabricante. Preço, prazo, garantia, conteúdo local, acesso a financiamento e capacidade de entrega definiam quem conseguia colocar uma oferta competitiva de pé.

O LRCAP 2026 Armazenamento com conteúdo nacional deve repetir essa dinâmica, com um grau de complexidade adicional. O credenciamento BNDES/CFI exige comprovação de requisitos mínimos de nacionalização do equipamento e a capacidade produtiva certificada no Brasil para sistemas de armazenamento é limitada.

O desenvolvedor que chegar ao cadastramento de julho sem acordo um parceiro comercial de fornecimento já em estudo carrega riscos como a falta acesso ao insumo crítico do leilão o equipamento elegível, financiável e entregável no prazo.

No produto aberto, a dinâmica será diferente. Haverá maior liquidez global, mais alternativas de fornecedores e maior pressão competitiva de CAPEX. Mas também haverá outros riscos câmbio, logística, suporte local, garantias internacionais, integração ao padrão brasileiro e capacidade real de entrega.

O que esperar do Leilão

O LRCAP de Armazenamento vai revelar alguns pontos sobre a cadeia de fornecimento, a disciplina financeira, a leitura regulatória e de quem entende que flexibilidade é um negócio diferente da geração tradicional, ou transmissão e precificou corretamente os riscos de entregar capacidade pelo período da concessão. A execução vai separar quem comprou bateria de quem construiu uma tese.

O mercado que acertar isso vai definir o preço. E vai, provavelmente, definir também o padrão para os leilões de armazenamento que virão depois.

Pode-se afirmar que o Brasil abrindo o mercado de armazenamento em um momento com tecnologia madura, custos globais menores, necessidade sistêmica evidente e uma estrutura regulatória que está recomeçando a reconhecer o valor da flexibilidade.  Essa combinação torna o BESS um bom investimento potencial.Samuel Barbosa é executivo sênior de infraestrutura e energia com duas décadas de experiência em obras, M&A, desenvolvimento de novos negócios e gestão estratégica de portfólio no setor elétrico brasileiro. As opiniões expressas são de caráter pessoal

COMPARTILHE

Instituições Apoiadoras

MAIS NOTÍCIAS