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A regulamentação da Lei 15.269/2025 marcou o início de uma nova era para o setor elétrico brasileiro, abrindo as portas do mercado livre de energia para os consumidores de baixa tensão (Grupo B). Nesse cenário de transição, as PCHs surgem como peças estratégicas, mas enfrentam o desafio de se reposicionarem diante de gigantes hidrelétricas e da expansão agressiva das fazendas solares.
Em entrevista exclusiva, Samuel Barbosa , especialista em negócios de energia, analisa as oportunidades e os riscos dessa migração. Para ele, o sucesso no varejo exige que os operadores de PCHs abandonem a visão simplista de “vendedores de volume” para se tornarem gestores de portfólios complexos.
O fim da “guerra do kWh”
Segundo Barbosa, embora o consumidor varejista tenda a olhar primeiro para o preço, a PCH não deve tentar vencer a fonte solar no custo marginal de geração. A vantagem competitiva da fonte hídrica de pequeno porte reside na previsibilidade e na modulação.
“No varejo, fornecer energia é uma engenharia complexa. Não se trata apenas do volume em kWh, mas da capacidade de combinar perfil de geração, comportamento da carga e uma engenharia de risco capaz de alinhar a planilha à realidade operativa”, afirma Barbosa.
Diferente das fontes intermitentes , as PCHs funcionam como “estabilizadoras de portfólios”, reduzindo a exposição dos comercializadores ao PLD horário , que oscila conforme a disponibilidade de sol e vento, completa.
Desafios da migração: Do PPA ao varejo pulverizado
A transição de contratos de longo prazo, com contrapartes únicas para o mercado pulverizado é vista por Barbosa como uma mudança drástica de modelo de negócio. O risco, antes concentrado em questões operacionais e de crédito de um grande player, passa a ser de churn , inadimplência distribuída e correlação adversa de carga.
“Um erro comum é imaginar que pulverizar clientes equivale automaticamente a diversificar risco. Não é assim”, alerta. Para atuar no varejo, o operador de PCH precisa de robustez tecnológica no backoffice e uma visão sistêmica para gerenciar as margens, que embora maiores, são acompanhadas de volatilidade inédita.
Um dos pontos centrais da análise de Barbosa é a separação entre lastro e energia. Historicamente, os atributos de confiabilidade e flexibilidade das PCHs eram “socializados” pelo sistema, sem que as usinas recebessem por isso.
Com a nova lei, espera-se que serviços como potência e serviços ancilares (suporte à rede) sejam devidamente precificados.
Barbosa esclarece que o mercado não pagará um prêmio pelo “rótulo” da fonte, mas sim pela redução do custo de hedge. “Um produto lastreado em PCH pode ter margem superior, pois o custo de proteção que o vendedor precisa embutir tende a ser menor do que em fontes intermitentes.”
Diante de regimes de chuvas cada vez mais erráticos, a estratégia de investimento em PCHs precisa de realismo. Barbosa destaca que a variabilidade hidrológica deixou de ser um risco eventual para se tornar uma condição estrutural.
“A PCH que atravessar com solidez os próximos 15 anos não será aquela mais otimista em geração, mas a que tiver sido financiada e operada incorporando a incerteza hidrológica em sua estratégia.”
Para Barbosa, o futuro das PCHs não depende de subsídios ou proteções artificiais, mas de um desenho de mercado agnóstico que remunere corretamente quem entrega confiabilidade ao sistema elétrico brasileiro.



