O avanço da sofisticação do mercado livre de energia e a consolidação das metas corporativas de descarbonização (ESG) têm conferido uma nova dinâmica ao mercado de Certificados de Energia Renovável (I-RECs) no Brasil. Nesse cenário, as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e as Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) começam a se destacar, sustentadas pela previsibilidade de sua geração e pelo forte apelo de desenvolvimento socioeconômico regional, afirma Fernando Lopes, diretor-geral do Instituto Totum. .
Atualmente, o Instituto Totum — emissor local oficial do sistema I-REC no país — conta com 127 empreendimentos de fonte hídrica cadastrados e ativos em sua plataforma. No último ano consolidado de 2025, o volume emitido por essa fonte atingiu a marca de 35.718.744,29 certificados, o equivalente a mais de 35,7 milhões de MWh rastreados e direcionados à comprovação de consumo de energia limpa.
A busca por “narrativas locais”
De acordo com Lopes, a maior procura por registros por parte de operadores de PCHs não decorre de um fator isolado, mas sim de uma convergência de forças do mercado. A abertura da alta tensão no mercado livre ampliou a maturidade dos consumidores e estimulou as comercializadoras a embutirem o I-REC como um diferencial competitivo diretamente nos contratos de fornecimento de energia.
Além da própria commoditização do certificado, o mercado começa a precificar nuances geográficas e sociais , Lopes aponta que o preço do I-REC é estritamente uma variável de mercado (dependente de oferta, demanda e localização), mas reconhece que as hidrelétricas de menor porte possuem diferenciais específicos:
“Em alguns casos, compradores podem valorizar atributos adicionais associados a determinadas fontes ou empreendimentos, como geração distribuída regionalmente, menor porte, conexão com comunidades locais ou características socioambientais específicas e nisso as PCHs possuem algum diferencial”, explica o diretor.
Essa demanda por uma “narrativa de sustentabilidade local” permite que empresas conectem sua comunicação ambiental diretamente ao território onde operam. Para estruturar essa estratégia de forma auditável, o mercado dispõe de selos de sustentabilidade acoplados ao I-REC tradicional, como o REC Brazil, que atesta o alinhamento do projeto a impactos socioeconômicos positivos na região.
Desafios documentais
Apesar do crescimento do interesse, a entrada e regularização de novas PCHs e CGHs no sistema exigem rigor técnico. Conforme o Instituto Totum, os principais motivos para atrasos nos processos de homologação não estão ligados à natureza da fonte hídrica em si, mas sim à organização documental e à consistência de dados dos operadores.
Os pontos que mais demandam atenção e revisões incluem: definição correta do dispositivo de geração; comprovação jurídica do direito de registrar e comercializar os atributos do empreendimento; aderência total das informações regulatórias e submetidas ao código do programa; a obtenção de dados verificados por meio da plataforma CCEE Origens necessita de autorização expressa e alinhamento do titular da usina.
O futuro dos certificados
No horizonte do mercado internacional, segundo Lopes, duas grandes tendências prometem reconfigurar o valor dos ativos renováveis no Brasil: a transição para I-RECs horários (rastreamento hora a hora da energia consumida versus gerada) e a exigência de aquisição de certificados no mesmo submercado de consumo.
“Na esteira dessas discussões — impulsionadas inclusive por debates sobre possíveis revisões nos critérios do GHG Protocol —, as PCHs despontam com uma vantagem intrínseca frente às fontes solar e eólica de grande porte: a geração firme e constante. Por não apresentarem a intermitência severa do vento e do sol ao longo das 24 horas do dia, a regularidade de entrega das pequenas hidroelétricas facilita o atendimento a perfis de consumo granular”
Fernando Lopes pondera que fontes com perfil de geração mais estável podem, em tese, ter atributos interessantes nesse contexto, já que a regularidade da geração pode facilitar estratégias de comprovação mais granular. No entanto, a transição para modelos horários depende de definições regulatórias, operacionais, tecnológicas e metodológicas do próprio mercado e dos programas internacionais de certificação.
“O Instituto Totum acompanha de perto as discussões globais e que, assim que as regras, procedimentos e infraestrutura técnica estiverem oficialmente desenhados e aplicáveis ao mercado brasileiro, estará pronto para orientar os agentes do setor a extraírem o valor máximo de seus ativos ambientais”, conclui.


