Para os desenvolvedores de pequenas hidrelétricas presos na armadilha dos juros altos no Brasil, a conta há muito tempo deixou de fechar facilmente. Com os custos de empréstimo sufocando as despesas de capital e os relógios regulatórios correndo contra o tempo, garantir financiamento antes que um empreendimento trave tornou-se um jogo de alto risco.
Esse quadro revela um contraste desafiador, como define Luiz Antônio Valbusa, diretor da SEMI Industrial (SP). Isso porque, embora a viabilidade regulatória e contratual das usinas esteja assegurada, o ritmo de execução dos projetos nos canteiros de obras encontra-se bastante desacelerado.
Como minimizar o desembolso
Como o principal entrave para que esses empreendimentos saiam do papel é o alto custo do dinheiro — o que encarece o financiamento do CAPEX e estressa os investidores diante de eventuais atrasos no cronograma —, para Valbusa torna-se fundamental oferecer ao cliente alternativas estratégicas que minimizem o desembolso inicial sem comprometer os prazos regulatórios.
Diante de prazos médios de implantação de 12 a 18 meses para CGHs e de 15 a 24 meses para PCHs, a SEMI passou a trabalhar com um modelo de contratação que define como inteligente e fracionado em duas etapas — uma espécie de reviravolta pragmática para um setor que enfrenta restrições de crédito.
Sob o sistema de Ordens de Serviço em duas etapas implantado pela SEMI, os desenvolvedores investem uma quantia inicial para a engenharia executiva, detalhando casas de força e especificações de equipamentos para deixar as obras civis orçadas e “prontas na prateleira”. A segunda fase — a fabricação propriamente dita — permanece pausada até que o financiamento esteja garantido.
Ele explica que as propostas comerciais padrão possuem prazos de validade de 90 a 180 dias. Se a linha de financiamento de um cliente empacar e o intervalo entre a primeira e a segunda ordem de serviço ultrapassar de quatro a seis meses, esses custos passam por uma repactuação.
Velocidade operacional
Valbusa observa que os contratos incorporam cláusulas de reajuste atreladas a índices oficiais de inflação, como o IPCA ou o IGP-M, além de variações de matérias-primas em aço e fundidos, para restaurar o equilíbrio econômico-financeiro.
Quanto à pressão regulatória da Aneel, Valbusa argumenta que ter o projeto executivo pronto na prateleira absorve a lentidão burocrática inicial, permitindo que a fabricação comece no exato momento em que os recursos forem liberados. Com os prazos finais dos leilões estendidos até 2030, ele sustenta que há margem suficiente para absorver eventuais atrasos.
A atuação da SEMI mantém-se estritamente delimitada. A empresa cuida de plantas de carga e dimensionamento hidromecânico, deixando o projeto estrutural civil e as interfaces de concreto a cargo de construtoras terceirizadas pelos clientes.
Para dar sustentação à demanda, seu parque fabril em São José dos Pinhais (PR) possui capacidade instalada para produzir de 15 a 20 turbinas de médio e pequeno porte por ano, além de painéis elétricos e sistemas supervisórios.
“Para os investidores, o ganho é a velocidade operacional. Mantendo o desembolso inicial enxuto, eles evitam o peso do serviço da dívida de pré-financiar todo o ciclo de CAPEX. Uma vez iniciada a fabricação, a execução direta encurta os prazos de entrega, abrindo espaço para comercializar energia precocemente no ACL antes que os contratos regulados entrem em vigor — e, crucialmente, mantendo as penalidades da Aneel à distância”, explica Valbusa.


