Após anos em segundo plano diante da expansão massiva das fontes eólica e solar, as usinas hidrelétricas — em especial as pequenas centrais (PCHs) e as usinas reversíveis (UHRs) — voltaram com força ao centro do debate da transição energética brasileira.
A necessidade urgente de atributos como flexibilidade operacional, estabilidade e capacidade de armazenamento recolocou a fonte hídrica como pilar indispensável para a segurança do sistema. Contudo, essa retomada enfrenta sérios obstáculos operacionais e estruturais na infraestrutura de transmissão e distribuição do país.
O diagnóstico foi apresentado por Augusto Machado, presidente do SINGTD (Sindicato Intermunicipal das Empresas de Geração, Transmissão e Distribuição de Energia do Estado de Minas Gerais).
Segundo o executivo, a inabilitação de cerca de 55% dos empreendedores de pequenas hidrelétricas no último leilão foi exclusivamente por margem de escoamento do setor, que escancarou um problema de dimensão nacional: a grave restrição de acesso e conexão à rede elétrica, cenário do qual apenas a Região Sul conseguiu se preservar relativamente.
O efeito colateral do boom da Geração Distribuída
O nó cego da conexão elétrica decorre, em grande medida, de um crescimento desequilibrado na matriz ao longo dos últimos anos. Com a forte atração de investimentos para a energia solar fotovoltaica, a Geração Distribuída (GD) experimentou um salto exponencial que superou a capacidade de absorção das redes.
Em um intervalo de 14 anos, MG agregou cerca de 14,5 GW de energia solar — aproximadamente 40% de GD e 60% de geração centralizada —, enquanto a fonte hidrelétrica respondeu por menos de 1 GW de expansão no mesmo período.
Como esse volume massivo de micro e mini geração não está em grande parte sob o controle direto do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ou das concessionárias de distribuição, o planejamento tradicional da infraestrutura de transmissão e distribuição foi desbordado, diz Machado.
“ Trata-se de um dado de realidade do mercado: a rápida descentralização sem a devida ampliação das linhas criou pontos de saturação no sistema. A consequência direta é a falta de margem de escoamento para novos projetos hídricos e, em determinadas regiões, a existência de restrições na capacidade de atendimento ao crescimento da carga, dificultando a conexão de novos consumidores e a expansão das atividades econômicas locais.”
O caso de Minas Gerais
Desde 2019, Minas atraiu R$ 83,1 bilhões em investimentos privados no segmento solar, gerando mais de 7,7 mil empregos diretos e indiretos e garantindo que mais de 97% de sua capacidade instalada venha de fontes sustentáveis.
O estado lidera a Geração Centralizada solar no país com 8,76 GW (responde por quase 40% de toda a produção nacional do modelo) e ocupa a segunda posição em Geração Distribuída, com 5,7 GW, atrás apenas de São Paulo.
No entanto, segundo Machado, essa concentração de investimentos em GD e em grandes parques solares acabou centralizando a capacidade disponível de conexão das distribuidoras. Com as redes saturadas para o recebimento de energia intermitente no período diurno, os projetos de PCHs no estado passaram a enfrentar severas dificuldades de acesso e inviabilidade técnica de escoamento nos leilões.
Soluções integradas
Para superar o impasse, o SINGTD defende que o planejamento elétrico do país evolua para uma visão integrada. Não basta investir isoladamente em distribuição ou transmissão; a expansão das redes deve ser planejada em simbiose direta com a localização dos novos empreendimentos de geração hídrica, que oferecem a firmeza que a rede necessita, permitindo novos bons investimentos. Minas também necessita evoluir nos processos de licenciamento ambiental e de outorga de recursos hídricos
O novo momento da transição energética exige tecnologias capazes de prover modulação e armazenamento de energia, compensando a variabilidade das fontes intermitentes. Junto com baterias, biomassa e térmicas de suporte, as Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs) despontam como solução estratégica para conferir flexibilidade ao Sistema Interligado Nacional (SIN), conclui Machado.


